13 de outubro de 2018

Tempos sombrios

Ontem em minhas andanças vi algo que me deixou estarrecido. Um grupo de crianças estava do outro lado da rua, quando um dos meninos, negro bateu em um portão e gritou “Bolsonaro 2018”. E as crianças continuaram andando.
Eu realmente não entendi o que o menino queria dizer falando aquilo, se foi uma forma de intimidar aos que estavam do lado do portão, ou se era pra fazer a zoeira, como se costumam dizer os fãs do “mito”.
Talvez não saiba que nestes tempos sombrios, este gesto esteja dando o aval para seu próprio risco.
O eleitor de Bolsonaro que pertence a uma parte da população que sofrerá as consequências de seu futuro governo o fará por sua conta e risco, e espero que saiba muito bem o que está fazendo. o contrário, sofrerá as consequências de permitir-se ter seus direitos reduzidos, e sua integridade social, econômica e física em risco.
Lembro-me que em 1989 eu assistia muita televisão. O universo que era mostrado na tela de tubo de raios catódicos era colorido, fantástico e atraente.
Mesmo com um monte de colegas de classe falando em Lula, eu estava do lado de Collor, mas não percebia a realidade que me cercava, não percebia que as condições de vida naquela Diadema de 1989 não eram condições boas para todos. A pobreza era visível e saltava os olhos, mas eu ignorava tudo aquilo.
Quando eu passei a aprender a enxergar o mundo além da televisão, eu percebi a outra face da mídia: sensacionalista, utópica, violenta, destrutiva, segregatória e elitista. Isto me fez perceber hoje, que aquela visão que tive na infância era uma visão deturpada e míope sobre a sociedade. Hoje entendo que o ser humano é um ser social e que precisa se ver como parte de uma coletividade, ao contário do que se divulga a propaganda que vemos na mídia e nas organizações.
Na TV se odeia pobre. Ser humilde era e continua sendo visto como motivo de vergonha e as pessoas eram e são ainda medidas por suas posses. O pobre era a chacota do Brasil. Isso só mudou com a ascenção do lula-petismo em 2003, quando se teve a igualdade de oportunidades e a abertura do acesso universal a educação, saúde e alimentação, trazendo o acesso ao consumo à reboque.
Se naquela época a TV se encarregava de ditar a opinião pública, hoje as redes sociais e o WhatsApp se encarregam de fazer isso através das fake news.
Hoje vejo ainda as consequências dessa cultura anti-pobreza. As pessoas aceitam gastar, ostentar produtos caros como celulares de último modelo, ou carros de último tipo. As pessoas veneram o self-made man e creem na ideia da meritocracia. As pessoas pagam muito mais pelas coisas do que essas coisas realmente valem, para mostrar as outras que são capazes de comprar. Pagam R$ 4.000,00 por um iPhone ou um Galaxy S9, que nos EUA valem menos do que R$ 2.000,00, ou ainda gastam mais de R$ 100.000,00 por um carro que na Argentina, vale menos da metade do preço. Pagam R$ 4,00 no litro da gasolina, quando na Bolívia paga-se bem menos pelo litro.

Daí a ascensão de Bolsonaro. Bolsonaro representa um discurso que agrada aos conservadores da elite, e por aqueles que almejam estar nessa elite, com a tola estratégia de querer pensar igual a eles. Um pensamento que poderia ser mudado durante o petismo da primeira década do século XXI, mas que falhou em alguns aspectos. Dois aspectos devem ser colocados em roga: o primeiro está na mídia. A democratização da mídia passa pelo incentivo a mídia pública e popular. Quanto maior a concorrência, menos concentrado ficaria o poder de empresas hegemônicas de comunicação. O outro estaria na educação pública. O aumento das vagas do ensino superior público deveria ser muito maior, pois no ensino superior privado, muitas das ideologias de mercado são disseminadas (e há quem defenda o escola sem partido, para evitar a esquerdatização da educação), sendo que a maioria dos jovens e adultos concluíntes destes cursos alimentam os mesmos sentimentos e pensamentos que podem colocar Bolsonaro no poder nessas eleições.
Com essa eleição, conseguiu-se o impossível: a bancada de partidos progressistas está ainda menor, com as bancadas do Boi, da Bíblia e da Bala ainda maiores. Não importa quem vencer o pleito, a agenda dessas bancadas será imposta. A diferença entre a vitória de Haddad e Bolsonaro será na velocidade da imposição dessa agenda: no caso de Haddad vencer, haveria uma maior resistência, no caso de vitória de Bolsonaro, a agenda irá se impor velozmente sobre a sociedade, com consequências desastrosas como a marginalização dos movimentos sociais, o aumento da desigualdade social, da violência e da repressão.
Serão tempos sobrios para o movimento sindical, feminista, LGBT, negro e outros movimentos sociais. Também será sombrio para quem não pertença ao movimento mas que pode sofrer discriminação por conta do gênero e identidade de gênero, cor, orientação sexual, procedência regional, religião (principalmente se for de matriz africana), e classe social.
O menino do início da nossa história até não sabe, mas chamou os tempos sombrios para perto dele.