6 de julho de 2017

Flamengo x Atlético, 21 de agosto de 1981

Pretendo dedicar esse espaço a assuntos atuais. Mas esta semana, ao recordar os 5 anos do título do Corinthians na Libertadores no YouTube, me foi recomendado outro vídeo de um jogo histórico dessa mesma competição, mas um tanto controverso. Um jogo de desempate da primeira fase da Taça Libertadores entre Flamengo e Atlético-MG, que durou apenas 37 minutos, teve 5 expulsões, confusão e vitória do Flamengo por W. O. O vídeo tinha cerca de 7 minutos e tinha um tom fúnebre.

Tudo começou aos 32 minutos de jogo, quando o atacante Reinaldo cometeu falta em Zico e foi expulso pelo árbitro José Roberto Wright. O que ocorreu a seguir foi uma enorme sucessão de expulsões, confusão, simulação de contusões e o encerramento abrupto do jogo pelo árbitro da partida. Primeiro, o jogador Éder esbarrou no árbitro, que interpretou o ato como agressão e o expulsou. Isso gerou a revolta dos jogadores no banco de reservas e diretoria do clube, que invadiram o campo. Nesta confusão, Chicão e Palhinha também foram expulsos pelo juiz. A partida fica paralisada, a polícia entra em campo para escoltar o árbitro, que também expulsa os jogadores do banco de reservas do Atlético, além do técnico Carlos Alberto Silva. A partida foi retomada com o Atlético com 7 jogadores e sem reservas contra o Flamengo. Mas o jogo não foi adiante por muito tempo. Minutos após o reinício, o goleiro do Atlético, João Leite, com a bola em mãos, chuta-a para fora e cai no gramado, simulando uma contusão. O árbitro da partida, constatando a simulação, expulsa o goleiro e decreta o final da partida, com a vitória do Flamengo por W.O. e com apenas 37 minutos de partida jogada.

Algumas observações sobre o fato que realmente me intrigaram: a primeira é quanto ao regulamento do torneio. Teoricamente não havia a necessidade de uma partida de desempate, visto que o saldo de gols do Flamengo era melhor que o do Atlético. Outro fato curioso é que a partida foi realizada em campo neutro, o estádio Serra Dourada em Goiânia, e o jogo foi realizado em uma sexta-feira, tendo, apesar da data incomum para uma partida de futebol na época, um público de mais de 70.000 torcedores no estádio. Outro fato curioso é a arte do gramado, extremamente estranha e confusa, com um ladrilho de quadrados e círculos em todo o campo que até lembravam vagamente a logomarca da Rede Globo. A arte do gramado era tão estranha que o árbitro pediu para repintar a linha central do gramado de amarelo para que ficasse visível.

Imagem capturada do campo de jogo: arte estranha do gramado

Após pesquisar a respeito, vi alguns pontos de vista, alguns até questionáveis que narraram o fato. Na Wikipédia, há apenas uma citação sobre o episódio (inclusive com um erro de data):

Para decidir o primeiro colocado neste grupo ocorreu um jogo de desempate entre Flamengo e Atlético Mineiro no Estádio Serra Dourada em Goiânia, a 9 de agosto. O Flamengo foi declarado vencedor do jogo. Aos 37 minutos o Atlético Mineiro contava com apenas seis jogadores devido a expulsões de Éder, Reinaldo, Chicão, Palhinha e Cerezo, pelo árbitro José Roberto Wright. A confusão começou após o craque atleticano Reinaldo ter sido expulso por cometer uma falta em Zico no meio de campo.

As versões tidas como oficiais, da Rede Globo de Televisão, através do portal globoesporte.com, buscavam contemporizar o fato e retratou a versão do árbitro da partida, que, em sua entrevista, não assumiu nenhum erro, ou culpa, pelo episódio. José Roberto Wright foi por muitos anos, comentarista de arbitragem da Rede Globo de Televisão. A entrevista foi feita em 2013, quando o Atlético-MG ganhou o título da Libertadores. No relato de Wright, ele culpou o próprio Atlético e seu presidente na época, Elias Kalil, por ter inflamado a equipe a entrar em campo em clima de guerra:

“Naquela ocasião de 81, o Flamengo x Atlético de Goiânia foi a continuação do Brasileiro do ano anterior, em que o Flamengo venceu por 3 a 2 e o Atlético reclamou muito. Infelizmente o presidente do Galo, que era uma pessoa de muito boa índole e caráter, inflamou a equipe dele, criando um clima bélico totalmente desnecessário. Os jogadores do Galo queriam ganhar de qualquer jeito e acabou acontecendo aquilo.” (José Roberto Wright)

A forma com as declarações foram feitas pelo árbitro me causaram estranheza, isto pois sempre as ações reprováveis relatadas pelo árbitro no texto eram acompanhadas de elogios aos autores dessas ações, como se pormenorizasse os fatos e qualificando-os como fatos excepcionais, que tivessem ocorrido apenas uma vez na vida desses autores. Assim ele descreveu a derradeira expulsão, de João Leite, culminando no fim prematuro da partida:

“No fim do jogo, o João Leite fez cai-cai e eu lhe disse: "Levanta que você não tem nada." Ele respondeu, dizendo que o jogo ia descambar para a pancadaria. Como ele não quis levantar, eu disse: "Quer saber de um negócio, então sai!". Mas o João foi um jogador extremamente disciplinado. Foi um fato episódico.” (José Roberto Wright)

Outro relato que também me trouxe algumas suspeitas, foi do blog Futebol Internacional, do site do jornal A Tribuna. O artigo, escrito por Bruno Rios, em 28 de dezembro de 2014, portanto depois da publicação da matéria do portal globoesporte.com, relatava exatamente a mesma coisa, porém com as declarações de Reinaldo (o primeiro a ser expulso), Éder Aleixo (o segundo expulso no jogo), além do próprio Wright.

“O Wright já entrou em campo disposto a expulsar alguns jogadores do Galo. Na primeira falta que fiz na intermediária do Flamengo, ele me deu vermelho. Estava com a intenção de colaborar com o Flamengo, ameaçando o time do Galo. Criou um clima para expulsar os jogadores” (Reinaldo)

“Me lembro com muita tristeza daquele jogo. O Atlético-MG tinha um timaço, como o Flamengo, que também tinha um timaço. Três jogadores de cada time foram titulares da Seleção Brasileira de 1982. No Serra Dourada, teve muita confusão com a arbitragem. A expulsão do Reinaldo, logo no começo do jogo, foi muito ruim, mas, mesmo com um a menos, nosso time estava melhor que o deles. Depois, também fui expulso, e aconteceu tudo aquilo.” (Éder Aleixo)

“Criaram uma atmosfera muito pesada. O então presidente do Atlético, Elias Kalil, que foi um grande dirigente, ferveu o jogo. Insuflou o time e a torcida. Não me arrependo de absolutamente nada. Fiz tudo neste jogo e na minha carreira de maneira limpa. Me orgulho de ter feito aquilo que realmente deveria ter feito. Era o que minha condição moral exigia”. (José Roberto Wright)

O tom do texto era menos jornalístico e mais informal, com o princípio da imparcialidade, claramente deixado de lado. A TV Tribuna, filiada a Rede Globo de Televisão e que atua no litoral paulista pertence ao mesmo grupo do jornal A tribuna, de onde originou esse artigo.

Encontrei um artigo no portal goal.com que noticiou que o jornal inglês The Guardian, ao responder perguntas de leitores sobre curiosidades futebolísticas, respondeu a um questionamento de um leitor sobre o episódio, classificando-o como bizarro e uma farsa. O artigo original do jornal inglês relata o episódio finalizando que após o termino prematuro da peleja, o árbitro marchou direto e orgulhoso. O desenho do gramado também chamou a atenção do historiador Luke Dempsey, que relatou o ocorrido em seu livro, Club Soccer 101, sem tradução para o português, e que serviu de base para o texto do The Guardian. Segundo o mesmo, era histriônico a louca forma com foi cortada a grama naquele dia.

Os vídeos do jogo disponíveis na internet foram da transmissão da Rede Globo. A narração foi de Luciano do Valle, já falecido. Em alguns trechos da narração, Luciano relatava que o árbitro da partida estava perdido em campo. As imagens mostraram um certo exagero do árbitro ao expulsar os jogadores. A falta de Reinaldo em Zico não era grave, e o esbarrão de Éder Aleixo em Wright não pareceu proposital. Tanto que, ao receber o cartão vermelho, Éder se ajoelha e põe as mãos ao rosto, sinalizando desespero. O que ocorreu a seguir foi realmente uma consequência de uma reação indignada e desencadeada por dois erros não admitidos pelo árbitro. Todos os jogadores que invadiram o gramado e estavam no banco de reserva foram expulsos. Mesmo com 7 jogadores, o cenário era de uma covardia brutal. Realmente não havia mais clima para uma disputa, pois não era mais uma disputa justa. 11 jogadores do Flamengo contra 7 jogadores do Atlético e sem nenhuma peça de reposição (todos os reservas foram expulsos), e sem ter quem o orientasse (o técnico também havia sido expulso).

Se houve algum tipo de manipulação ou farsa, não sabemos, mas há evidências. Em 1982, em combinação com a Globo, Wright apitou a final da Taça Guanabara entre Flamengo e Vasco, com um gravador escondido sobre a camisa. Os jogadores dos dois clubes ficaram indignados com a invasão de privacidade e o denunciaram. Por conta disso o árbitro ficou suspenso por 40 dias.

Uma grande rede de televisão e um clube popular, com uma fase excelente e bons jogadores. O Flamengo campeão da Libertadores de 1981 teve uma campanha quase perfeita: só perdeu uma partida na final contra o Cobreloa do Chile pelo placar mínimo. Uma campanha quase irretocável, exceto por esse 21 de agosto de 1981. Realmente não era necessária uma influência tão controversa da arbitragem, que provocasse um benefício, deslegitimando uma das melhores escalações (se não a melhor) flamenguistas de todos os tempos. Será que esse episódio não tenha trazido alguma influência sobre o time de 1982? Será que a Rede Globo não tenha obtido alguma vantagem se o Flamengo não tivesse vencido o desempate em Goiânia? O que seria do Atlético se tivesse superado o rival que havia perdido a final do campeonato nacional no ano anterior?

Os 37 minutos mais controversos do futebol brasileiro nos servem de reflexão. Pois evidenciam um poder midiático que o futebol estaria subjugado, além de normas absurdas de um campeonato com um regulamento singular que foi aquela Libertadores de 1981. Uma mácula no coração do torcedor atleticano, que só viu esquecer, quando venceu a Libertadores de 2013, um lapso de 32 anos de uma história que ainda deixa precisa ser contada.


Bibliografia

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